Vivemos em uma era em que criar filhos exige mais do que cuidado e presença: exige constante conexão, vigilância digital e decisões difíceis. Falo aqui como mãe, mas poderia perfeitamente ser o pai, os avós ou qualquer cuidador responsável que, diariamente, tenta equilibrar o uso da tecnologia com os valores que deseja transmitir.
Conexão com os filhos, com a escola, com o trabalho — e, principalmente, com a tecnologia. Conexões no sentido amplo da palavra. Nas redes sociais, a maternidade se transformou em um ideal quase inatingível: mães perfeitas, casas organizadas, filhos sempre sorrindo. É uma maternidade “instagramável”, onde a exaustão, a culpa e os medos reais perdem espaço para filtros e frases de autoajuda. Mas a verdade, por trás das telas, é bem mais crua.
Como mãe de duas adolescentes e, atualmente, cursando especialização em Direito Digital, convivo com um paradoxo: por um lado, vejo nas tecnologias ferramentas valiosas para o aprendizado, o desenvolvimento e até a segurança. Por outro, reconheço o impacto silencioso que esse mesmo universo digital exerce sobre a saúde mental, a formação da identidade e a privacidade das nossas crianças — e de nós mesmas.
Enquanto alguns países proíbem o uso de celulares nas escolas, outros apostam na digitalização do ensino. Enquanto nos preocupamos com os efeitos do TikTok, somos lembrados de que o futuro do trabalho está intrinsecamente ligado à inteligência artificial e à fluência digital. Estamos num mundo onde tudo parece ser “tudo ou nada”: ou se rejeita a tecnologia e se busca um refúgio analógico, ou se entrega por completo à hiperconectividade e às suas consequências.
E se estivéssemos apenas errando na pergunta? O desafio talvez não seja “limitar ou liberar”, mas sim como ensinar a pensar criticamente sobre esse ambiente. Reforçar que o que é postado nem sempre, ou quase nunca, é totalmente verdade. Que privacidade é um direito — e não um botão de aceitar cookies. Que nem tudo deve ser gravado, rastreado, monetizado. E que até mesmo as nossas emoções precisam de espaço longe da comparação e do julgamento digital.
A tecnologia molda o presente e será o idioma do futuro. Mas quem forma o conteúdo que circula nas redes somos nós. E, principalmente, o modo como educamos nossos filhos a navegar nesse mundo. Não é sobre medo ou idolatria. É sobre consciência, equilíbrio e responsabilidade.
BEATRIZ SIDRIM
JURISTA E
CEO DA DESTINOS
OBJETIVOS
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