É muito surpreendente observar que, em sociedades distintas como a brasileira, a americana e a francesa, ideias de supremacia, tidas como superadas, ressurgem com força e encontram aceitação em diferentes camadas da população. A supremacia racial, que marcou regimes totalitários do século XX, e a supremacia estatal, na qual grupos no poder impõem dominação sobre os demais, reaparecem sob novas roupagens, impulsionadas por discursos populistas que exploram crises econômicas, culturais e sociais.
Esses ideais, que pareciam derrotados pela história, ganham força no vácuo deixado pela frustração com as instituições democráticas e pela disseminação de desinformação, ampliada pelo uso estratégico das redes sociais.
Nos anos 1930 e 1940, discursos nacionalistas extremistas, a desumanização de minorias e o desprezo pelas instituições democráticas pavimentaram o caminho para a Segunda Guerra Mundial, o conflito mais destrutivo da história moderna. O nazifascismo exterminou milhões, perseguiu opositores, exterminou comunidades inteiras e comprometeu profundamente o progresso civilizatório.
A ascensão de líderes totalitários na Europa e em outras partes do mundo mostrou como a instrumentalização do medo e do ressentimento pode levar a tragédias irreversíveis. O custo humano e social desse período foi incalculável, deixando marcas profundas que, por décadas, serviram de alerta contra a repetição dos erros do passado.
A resposta do mundo ocidental foi a consolidação da democracia liberal, que garantiu direitos individuais, pluralidade política e prosperidade econômica. O período pós-guerra viu a criação de instituições internacionais voltadas para a estabilidade global e a proteção dos direitos humanos. A ascensão do Estado de bem-estar social em diversos países e a promoção da cooperação internacional pareciam indicar um caminho sem retorno para sociedades mais justas, abertas e inclusivas.
Entretanto, nas últimas décadas, o avanço da extrema-direita e o questionamento das bases democráticas têm minado essa estabilidade. O revisionismo histórico, a exaltação de regimes autoritários do passado e a tentativa de reabilitar discursos de segregação demonstram que a humanidade não aprendeu com suas tragédias.
O perigo reside na repetição da história: quando o extremismo cresce, as tragédias se tornam inevitáveis. O atual momento mundial exige vigilância, compromisso com a verdade histórica e fortalecimento das instituições democráticas. A complacência diante do avanço da intolerância pode custar caro, ameaçando conquistas fundamentais que foram duramente alcançadas ao longo do último século.
VANILO DE CARVALHO
ADVOGADO E MESTRE EM NEGÓCIOS INTERNACIONAIS
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