Só os profetas enxergam o óbvio

Recentemente assisti a uma entrevista televisiva em que a atriz Fernanda Montenegro afirmou, acertadamente, que Nélson Rodrigues e Ariano Suassuna “são autores da essência do Brasil”. Verdade a assertiva. E o certo é que – ficando para outra ocasião alguma análise certamente elogiosa para o grande Ariano Suassuna – Nélson Rodrigues era, além de um gênio da dramaturgia, um sagaz pensador. Isso não apenas por ele ver a vida como ela realmente é, mas porque, já naquela época, sobretudo nas décadas de 50 e 60, o autor contava tudo nos detalhes os mais fieis.
Além das peças de teatro, todas ainda – e por muito tempo será – contracenadas nos dias de hoje e lidas aos quatro cantos do país, Nélson Rodrigues escreveu uma produção vasta, passando, sobretudo, pelo teatro, crônicas e muitos contos, tendo sido as célebres 100 histórias, em contos, editadas sob o título de “A vida como ela é…”.

De fato, algumas observações, ou sentenças afirmativas, em tempos atuais, não podem mais ser ditas ou aceitas, a despeito de muito do que Nélson disparou causar, no mínimo, reflexão.
Para virtudes, ele certa vez disparou que “falta ao virtuoso feérico a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.” Para reputação, disse que essa característica – reputação – “constitui a soma de todos os equívocos que uma pessoa suscita.” Quanto ao sonho: “não aceita nem respeita os limites.” Tachou o teatro de ser “a mais prostituta das artes.” Entre as verdades e os canalhas, ele enunciou que “certas coisas, certas verdades, exigem um canalha para dizê-las!” E sobre ele mesmo, asseverou ser um obsessivo, destacando que o “que seria de nós, se não fossem três ou quatro ideias fixas”.
Dentre alguns aforismos fortes, descarregou o dramaturgo que “todo mundo faz sexo. Uma ínfima minoria, seletíssima minoria, faz amor”; que “qualquer um pode ser obsceno, menos o ginecologista”; que o “canalha é uma figura de incalculável riqueza interior. O diabo é que é difícil, dificílimo, senão impossível, descobrir um canalha.”
“Frases inesquecíveis de Nélson Rodrigues – só os profetas enxergam o óbvio” – é um livro de apresentação de André Seffrin, editora Nova Fronteira, edição de 2020, em que constam essas e outras tantas [in]verdades interessantíssimas, muitas das quais, realmente, sugerindo a vida exatamente como ela é.

RODRIGO CAVALCANTE
PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E SECRETÁRIO DE AUDITORIA INTERNA NO TRT/7ª REGIÃO

O post Só os profetas enxergam o óbvio apareceu primeiro em O Estado CE.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.