Aclamado por público e crítica, com 22 indicações e vencedor dos prêmios Shell (melhor atriz para Vera Holtz) e APTR (melhor atriz e para Vera Holtz e melhor música para Federico Puppi), Ficções ocupa o Theatro José de Alencar, em Fortaleza, de 4 a 6 de abril, com a marca de 40 cidades percorridas e mais de 130 mil espectadores, em dois anos e meio de sucesso. Idealizado pelo produtor Felipe Heráclito Lima e escrito e encenado por Rodrigo Portella, “Ficções” teve como ponto de partida o livro Sapiens – uma breve história da humanidade, do professor e filósofo Yuval Noah Harari, que vendeu mais de 23 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.
O espetáculo conduz o público por uma bem-humorada viagem sobre a trajetória do Homo Sapiens. Vera Holtz se desdobra em personagens da obra literária e em outras criadas por Rodrigo, canta, improvisa, “conversa” com Harari, brinca, instiga a plateia e interage com o multi-instrumentista italiano Federico Puppi – autor e performer da premiada trilha sonora original, com quem divide o palco. Juntos, eles envolvem o público em uma profunda reflexão sobre as ficções que moldam nossa realidade e a evolução da espécie humana, levando o público a rir e se emocionar.
Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado, Vera Holtz mostra detalhes sobre esse sucesso que está conquistando o público.
O ESTADO | Vera, o que mais te atraiu no projeto “Ficções” e na proposta de explorar as “ficções” que moldam nossa realidade?
VERA HOLTZ | O que mais me atraiu foi o abismo que nós estávamos entrando naquela ocasião. Porque o Rodrigo não tinha lido o texto e, apaixonadamente, fez a adaptação (Rodrigo Portela). Eu fui convidada pela Alessandra Reis que tinha ideia e defendeu a ideia dessa obra ser feita pelo sapiens fêmea, uma mulher falando sobre a história da humanidade, que Alessandra achava que não tinha o menor sentido essa história ser contada por um sapiens macho. Então, essa ideia de que recorte iria ser feito, o livro, é um livro cabeçudo, difícil, o sapiens, do Yuval Noah Harari, então essa dúvida foi o que mais me estimulou a fazer. A dúvida, a paixão. E, obviamente, o abismo.
O E. | Como foi o processo de imersão nos diversos personagens que você interpreta? Qual foi o maior desafio em dar vida a tantas personas diferentes?
V. H. | Olha, o desafio é permanente no teatro, tá, gente? O teatro não é um lugar seguro. O teatro é um lugar que exige você permanentemente o estado de criação. De estar vivo, né, como dizia o Abujanra, você estar na ponta do casco. O Abujanra sempre falava isso. Na verdade, é uma coisa de jockey, né? O Abujanra adorava jogar. Então ele fala muito, que nós temos que estar na ponta do casco, estando preparados para tudo, estar preparado é tudo! Então tem esse desafio. Eu acho que entrar nas personagens foi muito lentamente, né? Muito pouco tempo de ensaio. Nós tivemos uns 40 dias de ensaio, foi muito rápido o processo de montagem dessa obra e essas personagens foram chegando à medida que nós fomos convivendo com a obra, mas já estávamos em cartaz e fomos refinando cada vez mais a relação da Vera Holtz, as personagens, o Federico Puppi, porque eu falo que é o duólogo, né? Federico Puppi está em cena comigo o tempo inteiro, essa relação palavra-música, palavra-música o tempo todo, quando você não chega por um sentimento da palavra, você vai chegar pelo sentimento da música.
O E. | Você mencionou gostar do “recorte” que Rodrigo fez, de poder criar e descriar. Como isso se manifesta no palco e na sua atuação?
V. H. | Nós estamos fazendo uma peça. Toda peça, você vai ver todo mundo em cena. Normalmente, você entra no espetáculo, você vê o espetáculo, o palco italiano, no caso, você vai ver as cortinas, aquela caixa preta fechada na lateral, fechada em cima. Você normalmente não vê o refletor, você não vê as cordas, você não vê nada. Toda a estrutura de um teatro. No caso da nossa peça, você vai ver tudo. Então, é um pouco isso. Nós podemos criar um teatro fechado, uma caixa preta fechada, mas também podemos “descriar”. Isso só é uma crença. O teatro tem que ser feito dessa forma. Então, nós vamos desconstruindo tudo o tempo todo. Podemos fazer uma peça dramática, podemos, mas também podemos fazer uma peça anárquica. Então, nós estamos construindo e desconstruindo, construindo e desconstruindo. A dinâmica do espetáculo é o tempo inteiro assim. Ela sai do drama e vai para a comédia. Daí ela vai para uma brincadeira quase infantil. Então, esse jogo, esse play, é o tempo inteiro para mostrar essa ação, essa forma de ação do sistema de crenças. Acreditar, não acreditar, construir e desconstruir.
O E. | Como você sente essa interação com o público durante a apresentação? Há momentos de improvisação que surgem dessa troca?
V. H. | A única hora de improvisação é quando a gente cai na risada, né? Porque chega uma hora que você se integra, fica tão conectado com a plateia que alguma coisa te desloca de algum lugar, tira a tua atenção e você vai para um outro lugar. Mas eu acho que não, né? O tempo inteiro a gente está o tempo inteiro nesse jogo, o tempo inteiro. Não tem improvisação, tá? A única improvisação que tem são cenas com instrumento. Ou que eu tô brincando com o Cello, Federico, ou eu tô brincando com o piano, né? Ou então eu tô com o berrante, que eu toco o berrante lá. Então essas são os três pontos de improvisação. O roteiro segue todo dia. O que muda com a energia do público é a vibração dele. O público às vezes é um pouquinho mais silencioso, outras vezes ele é mais barulhento. Então é um grupo que se forma ali, uma energia que se forma e essa isso não tem jeito, a troca existe o tempo todo.
O E. | A peça não é uma adaptação literal do livro, mas um diálogo com as ideias de Harari. Você como atriz, se conecta com essas ideias e as transmite ao público?
V. H. | Totalmente. Tudo que eu falo em cena, eu acredito. Tudo que eu falo em cena, eu defendo, assim como eu defendo a ideia de que nós somos animais.
O E. | Qual mensagem principal você espera que o público leve consiga após assistir a “Ficções”?
V. H. | Nunca o silêncio. Nunca a tranquilidade. Eu acho que as pessoas vão sair de alguma forma agitadas lá de dentro do trabalho e refletindo e uma palavra que eu repito muito no espetáculo, pensando, pensem.
Por Ismael Azevedo
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