
Em média, cada funcionário ficou uma semana sem trabalhar alegando problemas de saúde. Falta de assiduidade levanta alerta sobre avaliação dos pedidos e prejudica atendimento a pacientes. Um em cada três servidores da saúde de Ribeirão Preto já pediu afastamento neste ano
Um em cada três servidores da Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto (SP) ficou afastado de suas funções em média por sete dias nos dois primeiros meses deste ano após apresentar atestado médico. É o que mostra um levantamento da Prefeitura, obtido com exclusividade pela produção da EPTV, afiliada da TV Globo no interior de São Paulo.
Para especialistas, a taxa de absenteísmo, que chega a 33%, é alarmante e prejudica a qualidade dos atendimentos à população.
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“É inviável, não tem condição de tocar um serviço de saúde com essa taxa de faltosos. Precisa sem dúvida do gestor, do executivo, junto com o legislativo, pensar em medidas, porque sem dúvida tem uma relação que não é saudável entre o servidor e o que ele está buscando de certa forma para justificar essa falta do trabalho”, afirma o médico José Sebastião dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da USP e ex-secretário municipal de Saúde de Ribeirão Preto.
A Prefeitura considera os dados impactantes e informa que realiza estudos para compreender o motivo do elevado índice de afastamentos.
Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Ribeirão Preto (SP)
Luciano Tolentino/EPTV
33% de servidores afastados
Segunda mais numerosa na Prefeitura, somente atrás da Educação, a Secretaria Municipal de Saúde tem 3.046 funcionários públicos. Entre janeiro e fevereiro, 1.007, ou seja, 33% deles, solicitaram licenças para tratamento de saúde ao apresentarem atestados médicos, de acordo com os dados disponibilizados pela administração municipal.
Foram mais de 1,7 mil documentos apresentados, com uma média de sete dias de afastamento por pedido. Na projeção de um ano, isso representa a todo 24 dias. Os dados não levam em conta afastamentos por licença maternidade.
“É um número relativamente alto, considerando a quantidade de servidores hoje atuando todos os dias nos postos de saúde e ambientes de trabalho”, afirma o secretário municipal de Administração João Rafael Mião, ao citar que a taxa subiu com relação a 2024, quando a falta de assiduidade registrada foi de cerca de 20%.
Mião explica que a Prefeitura atualmente não tem uma explicação para tantos afastamentos, mas confirma que há um estudo em andamento para entender o problema.
“Hoje existe um estudo interno pra entender primeiro por que acontece o afastamento, qual o motivo desse afastamento do servidor pra que nós tenhamos uma possibilidade de amparo ao servidor para que ele volte a trabalhar e evite o afastamento”, diz.
Segundo o médico José Sebastião dos Santos, é difícil para o próprio profissional de saúde que avalia o pedido confirmar ou não se o afastamento é necessário de fato. Mas a taxa registrada pela Prefeitura, para ele, é acima do normal. A título de comparação, ele cita que o índice de afastamento em instituições como o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, onde ele atua, não passa de 6%.
“A maioria são queixas que a gente fala que não é tangível. A pessoa fala que está com uma dor na coluna. Difícil você realmente dizer que não está. Então tem uma dificuldade dos médicos que atendem. Agora, os servidores precisam entender que eles precisam ter um compromisso mais firme com o serviço público, porque essa taxa de cerca de 30% é inadmissível, não se justifica”, argumenta.
Atendimentos prejudicados
O secretário de Administração confirma que o elevado índice de afastamentos prejudica diretamente os pacientes que precisam dos postos de saúde, como no caso dos atendimentos que já estavam agendados.
“Quando há falta do profissional, isso causa um reagendamento, então o cidadão fica sem um atendimento naquele dia em que houve a falta do profissional. Isso vai ocasionando um represamento de atendimentos. O cidadão fica sem atendimento hoje e aquele atendimento futuro também sofre uma consequência de aumento de atendimento lá na frente”, analisa.
A falta de profissionais de saúde somente agrava o serviço que já é prejudicado por práticas como as trocas de plantão dos médicos, nas unidades públicas, além do uso excessivo do aparelho celular dos profissionais, segundo reclamações de pacientes como a aposentada Claudia Marize dos Santos.
“Fica muito tempo, eu já cheguei a ficar aqui das 6h e pouco da manhã até as 21h, porque, além do mais, os médicos têm má vontade (…) A gente sabe que eles têm direito de ficar doente, mas tem que ter alguma alternativa para que a gente espere menos”, reclama.
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