A sensação é essa: uma avalanche de informações, oportunidades, atividades, convites, serviços e produtos desmorona a partir da manhã de cada dia sobre nossos seres indefesos. Estímulos eletrônicos, telas permanentemente ligadas, notificações, chamadas. Inteligências artificiais, falsas, cretinas, manipuladoras, se esforçam para receber nosso clique, nos tragando para dentro de sua essência vazia mal disfarçada.
Essa conversa não é nova. Estamos – pelo menos nós, os adultos – cientes e conscientes desta realidade desrealizante: o virtual nos paralisa e nos extrai do mundo físico, da física de Newton, esse mundinho “real”, tangível. Acorrentados voluntariamente ao conteúdo das redes sociais: é a nossa vida comum.
A oferta de conteúdo é avassaladora. Se renova em proporções gigantescas a cada segundo, trazendo mais material que poderíamos sorver em 1000 vidas, se as tivéssemos. Essa superabundância de possibilidades invade a existência humana e acarreta um gigantesco stress decisório e a terrível sensação de incompletude: estamos sempre aquém de tudo o que há por fazer. Há muitas séries por maratonar, vídeos por assistir, cursos por fazer, gurus para seguir, não damos conta.
Passamos horas do dia presos na virtualidade tecnológica. Somos tão entregues a esta prática que, quando algum chamado do mundo tangível nos retira do transe no qual nos enfiamos, ficamos verdadeiramente irritados. O mundo real é chato, trabalhoso. O mundo real tem gente para lidar, vida para ganhar, criança para criar (e adolescentes! Socorro!), parente para aturar, vizinho para lidar. Quando nossa atenção é reivindicada por alguma pessoa de carne, osso e alma, nos pinçando do deleite enfeitiçado pela dopamina que a tela nos provoca, reagimos com irritação (“estou fazendo uma coisa importante!”). O mundo real é inoportuno.
Ricardo Semler (empresário, autor de Virando a Própria Mesa), percebendo o entojo causado, na época, por ferramentas tecnológicas como o e-mail, a navegação na internet e a rede social pioneira Orkut, fez na sua empresa a peculiar proposta de desligar toda a ligação virtual – toda – um dia por semana. Não sei se conseguiu implementar essa façanha. Mas a ideia dele ficou no meu coração. Para lembrar que somos livres, reais, corpóreos e finitos. Para cheirar a primavera e pisar as folhas do outono, de vez em quando. Para a possibilidade de um beijo molhado de amor, quem sabe? Para estar em silêncio ao lado do silêncio deste amor, na esperança de um toque de peles. Teríamos a coragem de nos desplugar completamente, uma vez por mês?
SÁVIO BITTENCOURT
PROCURADOR DE JUSTIÇA DO MINISTÉRIO PÚBLICO RJ
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