A cada 100 empresas listadas na Bolsa de Valores brasileira (B3), 56 não possuem mulheres na diretoria estatutária, e 37% não têm nenhuma representante no conselho de administração, segundo o estudo “Mulheres em Ações”, promovido pela B3.
A pesquisa, baseada em dados de 423 companhias listadas, aponta que 61% das empresas excluem mulheres das diretorias e, em 26%, apenas uma mulher ocupa posição de liderança.
Entre os conselhos de administração, 38% possuem apenas uma mulher. Entre todas as empresas analisadas, apenas 6% possuem três ou mais mulheres na diretoria estatutária.
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Desafios para lideranças femininas no mercado financeiro
Em entrevista exclusiva ao Monitor do Mercado, Louise Barsi, Sócia fundadora da Fintech AGF destaca que o mercado financeiro tem avançado com as questões da presença feminina, mas ainda enfrenta desafios estruturais e por mais que pesquisas apontem um pequeno aumento na participação de mulheres em cargos de liderança, essa presença ainda está abaixo do ideal.
Barsi destaca, ainda, que no setor financeiro, apenas 11% dos profissionais certificados pela CFA no Brasil são mulheres, e entre os analistas credenciados CNPI, a participação feminina é de 14%.
Outro dado alarmante é que as mulheres ingressam no universo dos investimentos mais tarde do que os homens e enfrentam jornadas de trabalho mais longas.
Segundo ela, “esses números revelam que ainda há barreiras a serem superadas, seja por meio do acesso à qualificação, da promoção de um ambiente mais inclusivo ou da ampliação de oportunidades em cargos estratégicos.”
Mulheres na liderança do mercado financeiro
Esses dados corroboram o desafio da inclusão feminina em cargos de alto escalão do mercado corporativo brasileiro, tema do Debate – Mulheres no Comando: Liderança, Empreendedorismo e Protagonismo no Mercado Financeiro, promovido pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) que reuniu lideranças femininas do setor.
Durante o debate, Maria Paula Cantusio, Chefe de Análise ESG e Temáticos – Santander e Membro da Comissão de Valuation da APIMEC Brasil, enfatizou a relação entre diversidade e equidade com o crescimento econômico.
Segundo ela, o PIB dependendo do aumento do número de trabalhadores, da produtividade e de mais tecnologia, para a economia crescer, aumenta-se a força de trabalho incluindo mulheres e outras minorias no mercado. E, após, aumenta-se a produtividade, oferecendo conhecimento especializado para essas minorias.
“Simplesmente não ter diversidade e inclusão dentro de políticas globais, quer dizer que você está limitando o crescimento do PIB do mundo, simples assim. Tudo a ver com crescimento econômico”, completa.
Mulheres na liderança do Novo Mercado
No segmento do Novo Mercado, que adota práticas mais rígidas de governança corporativa, 74% das empresas possuem pelo menos uma mulher no conselho de administração, um crescimento de 16 pontos percentuais em relação a 2021.
No entanto, a presença feminina na diretoria estatutária ainda é baixa: 55% das empresas não têm mulheres nesses cargos, e apenas 3% possuem três ou mais diretoras.
Nos outros segmentos, os avanços foram discretos:
- No segmento Básico, 47% das empresas possuem ao menos uma mulher no conselho, mesmo índice do ano anterior.
- No Nível 2, a participação feminina subiu de 69% para 71%.
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Mudanças regulatórias e impacto para investidores
Para impulsionar a diversidade, a B3 implementou o “Anexo ASG”, que obriga as empresas a adotarem medidas para aumentar a presença de mulheres e de grupos sub-representados na liderança.
A partir deste ano, as companhias precisarão apresentar ações concretas ou justificar a ausência de medidas. Em 2026, a exigência será ampliada para pelo menos duas pessoas de grupos sub-representados, incluindo uma mulher.
Para investidores, essa mudança pode impactar diretamente a governança das empresas e até a atratividade de ações, já que fundos e investidores institucionais cada vez mais consideram critérios ambientais, sociais e de governança (ASG) na tomada de decisões.
Mulheres em ascensão na renda variável
Apesar dos desafios na liderança corporativa, o número de investidoras na B3 cresceu significativamente nos últimos anos. Entre dezembro de 2020 e dezembro de 2024, o total de mulheres na renda variável aumentou 85,6%, atingindo 1,381 milhão.
No Tesouro Direto, o crescimento foi de 82,2% no mesmo período, ultrapassando a marca de 1 milhão de investidoras. Entre as investidoras de renda variável:
- 605.932 têm entre 25 e 39 anos, sendo a faixa etária com maior participação;
- 522.124 estão em São Paulo, seguido por Rio de Janeiro (149.206) e Minas Gerais (136.132);
- O Amazonas teve o maior crescimento percentual, com alta de 10,13% no número de investidoras.
Preferência feminina pelo Tesouro Direto
O crescimento da participação feminina no mercado financeiro reflete um avanço na educação financeira e maior independência econômica das mulheres, apesar das desigualdades ainda existentes nos cargos de liderança e nas remunerações.
No Tesouro Direto, as mulheres representam 31% dos investidores, com saldo médio de aplicação de R$ 45 mil. Os títulos mais escolhidos por elas são:
- Tesouro Selic: equivale 45,7% do total de investimentos femininos
- Títulos atrelados ao IPCA+: corresponde a 32,4% dos investimentos de mulheres
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Diferença salarial entre homens e mulheres no mercado
Sandra Perez, Diretora de Relações com Empresas e Eventos da APIMEC Brasil e Especialista em Investimentos no PagBank, destaca que cerca de 50% das mulheres que tiram licença maternidade ficam fora do mercado de trabalho depois de dois anos, reflexo de um viés estrutural, conforme aponta um estudo da FGV realizado em 2018.
No Brasil, 7% das mulheres que têm filhos ganham menos do que as mulheres que não têm filhos. O inverso, 8% dos homens que têm filhos ganham mais daqueles homens que não têm filhos.
Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) revelam que a diferença salarial entre homens e mulheres persiste:
- Diretoras e gerentes ganharam em média R$ 6.798 por mês, enquanto homens nos mesmos cargos receberam R$ 10.126, uma diferença de R$ 3.328 mensais (R$ 40 mil anuais a menos para as mulheres);
- Entre profissionais com ensino superior, a diferença salarial é de R$ 2.899 a menos para as mulheres;
- Na menor faixa de remuneração, 37% das mulheres ganham até um salário mínimo, contra 27% dos homens.
Além disso, mulheres dedicam, em média, 10 horas semanais a mais que os homens em atividades domésticas não remuneradas, o equivalente a 21 dias por ano.
Perspectivas para as mulheres no mercado financeiro
Apesar dos avanços regulatórios e do crescimento da participação feminina nos investimentos, a presença de mulheres em cargos de liderança ainda é baixa. A implementação de iniciativas como o “Anexo ASG”, por exemplo, e a pressão de investidores por maior diversidade podem acelerar mudanças nas empresas listadas na B3, impactando o mercado.
Para Louise Barsi, nos próximos anos, a tendência é que a presença feminina continue crescendo, conforme estudos que indicam que a maior diversidade nas companhias contribui para inovação, retenção de talentos e melhores resultados financeiros, reforçando a importância dessa transformação.
Segundo ela, “avançar nessa direção significa reconhecer o valor da diversidade e garantir que mais mulheres tenham voz e influência nas decisões que moldam o futuro do mercado“.
O post 61% das empresas da Bolsa excluem mulheres de suas diretorias apareceu primeiro em Monitor do Mercado.