Nesta semana, minha filha de 13 anos me contou sobre uma discussão ocorrida na aula de cidadania, motivada pela chamada ‘queda do governo’ em Portugal. As dúvidas levantadas entre os colegas eram tão primitivas quanto reveladoras. Uma delas me marcou em particular: “Mas por que o Presidente não manda no Primeiro-Ministro?”. A confusão sobre o funcionamento básico do sistema político era generalizada. Nenhuma criança parecia entender — de fato — o que estava acontecendo. E não pude deixar de pensar: estamos formando uma geração hiperconectada, mas profundamente desconectada do funcionamento das democracias em que vivem.
A ignorância política entre os jovens não é exclusividade de um país ou sistema. Ela é um sintoma da nossa era. Uma época em que os conteúdos são consumidos em segundos e a política é tratada como ruído de fundo — ou, pior, como “meme”. O acesso à informação nunca foi tão fácil, mas a compreensão crítica da realidade talvez nunca tenha sido tão precária.
Será que precisamos transformar conceitos como “separação de poderes” ou “funções do Legislativo e do Executivo” em dancinhas no TikTok para que sejam minimamente assimilados? Talvez. Mas essa constatação, mais do que triste, é alarmante. Quando o básico da cidadania se perde, abre-se espaço para o autoritarismo, a manipulação e as fake news. E o Brasil, assim como Portugal e tantas outras democracias, já sente os efeitos desse vácuo de formação política.
A responsabilidade não é só da escola. É da sociedade como um todo. É dos currículos que deixam a educação cívica em segundo plano. É da cultura que trata política como assunto “chato” ou “de adulto”. É também das famílias, que nem sempre sabem — ou querem — abordar o tema com os filhos. E, claro, é das redes sociais, que priorizam o engajamento à verdade e transformam política em espetáculo de desinformação.
Não é possível formar cidadãos sem consciência de seus direitos, deveres e do funcionamento do Estado. E isso não começa aos 18 anos, mas desde cedo. A educação política não deveria ser um privilégio, nem um detalhe do currículo escolar: deveria ser pilar de formação. Porque não saber o que é uma democracia não apenas impede a sua defesa — compromete o seu futuro.
BEATRIZ SIDRIM
JURISTA E
CEO DA DESTINOS
OBJETIVOS
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