Tráfico de armas Brasil x EUA: entenda os crimes “low profile”

Operação da PF foi feita em condomínios de luxo na Zona Oeste do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (20)Divulgação/Polícia Federal

O combate ao esquema de tráfico internacional de armas requer mais eficiência e continuidade nos trabalhos da Polícia Federal, e o emprego de inteligência, com participação das polícias internacionais.

Estas questões foram apontadas por especialistas em segurança pública ouvidos pelo Portal iG, repercutindo a ação desencadeada pela Polícia Federal na última quinta-feira (20), em condomínios de luxo no Rio de Janeiro, e a série de outras ocorrências semelhantes registradas nos últimos anos.

Ineficiência da Polícia Federal

Para o coronel da reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, que também é membro do Conselho da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (USP), o despacho de cerca de 2 mil fuzis para as facções no Rio mostra que existe um canal bastante robusto para este comércio.

O coronel da reserva da PM de SP e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva FilhoReprodução

Por outro lado, segundo ele, o fato revela a fragilidade de contenção das autoridades, principalmente a Polícia Federal. 

“Coibir a entrada de todo produto de origem criminosa, como o caso de armas, pelos aeroportos, portos e via terrestre, é incumbência da Polícia Federal. O estranho é que se passaram oito anos desde a apreensão dos 60 fuzis no Aeroporto do Galeão, o que mostra também a descontinuidade do trabalho. Não é possível que demore oito anos para se identificar um canal de exportação de armas para as facções no Rio de Janeiro”, aponta o especialista, em entrevista ao Portal iG.

Para ele, “são fatos que mostram ineficiência da PF, até pelo pouco recurso humano, e também mostram uma certa desatenção em relação ao crime organizado no Rio de Janeiro”. 

O poder do bandido está diretamente proporcional a essa ineficiência policial”, avalia José Vicente.

Discrição em vez de ostentação 

Sobre o crime organizado nos Estados Unidos, o ex-Secretário Nacional de Segurança Pública, aponta uma característica que o diferencia do crime organizado no Brasil: é o sistema criminoso de low profile (perfil discreto, em português), que quer lucrar sem chamar muito a atenção da polícia. 

“E eles são bem sucedidos nisso, por terem um grande mercado de consumo. Lá não há a disputa de território que observamos aqui, porque isso atrai, naturalmente, a atenção e a força policial”, finaliza.

Trabalho de inteligência

A Operação Cash Courier, da última quinta-feira, teve como foco a desarticulação de um esquema de tráfico internacional de armas que enviou aproximadamente 2 mil fuzis de Miami, nos Estados Unidos, para comunidades dominadas pelo crime organizado na cidade do Rio de Janeiro.

Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e empresariais ligados aos integrantes do grupo criminoso. A Justiça determinou o sequestro e bloqueio de bens e ativos no valor total de R$ 50 milhões.

Em 2017, dentro da mesma investigação, foram apreendidos 60 fuzis no Aeroporto do Galeão, na capital fluminense. 

O coronel Ubiratan Angelo, ex-Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, defendeu, em entrevista ao iG, a adoção de um trabalho de inteligência, com emprego de tecnologia e envolvimento de polícias internacionais no combate ao tráfico internacional de armas.

“Claro que é importante fechar as fronteiras. Você reduz uma série de possibilidades, mas é necessário inteligência policial para identificar as conexões, que não estão só dentro do país. E é preciso trabalhar com as polícias internacionais para desbaratar as quadrilhas”, defende o coronel.

O coronel Ubiratan Angelo, ex-Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de JaneiroReprodução

O ex-Comandante Geral da PM do Rio de Janeiro destaca que o crime organizado começa no planejamento de uma atividade criminosa e termina na lavagem de dinheiro, o que perpassa por uma série de outras atividades que são conectadas.

“O tráfico de armas tem um cliente certo, que é o pessoal do tráfico. E estes negócios ilícitos são mantidos pela força. Não existe venda de droga sem arma. O tráfico de drogas tem que necessariamente estar conectado com tráfico de armas, porque, quem vai fazer a proteção da droga?”, indaga.

Para ele, a cultura americana, com políticas públicas que não são de extremo controle sobre as armas, facilita a ação criminosa.  

“A venda de armas é fácil e, consequentemente, facilita também para as pessoas que vão utilizar essas armas para fins de escuros”, ressalta, lembrando também que integrantes do crime organizado brasileiro, como o PCC,  já estão infiltrados no crime organizado nos Estados Unidos.

“E é importante destacar ainda que o crime não acaba porque ele é muito lucrativo. O tráfico de armas não é moderno. Ele só está muito mais claro porque está muito mais intenso. E aí fica muito mais à vista”, conclui o coronel Ubiratan Angelo.

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