Robôs não são novidade. Cunhado pelo escritor Karen Čapek, Robô vem de “robota”, palavra checa para trabalho forçado. Adotado imediatamente pela ficção científica, o conceito de homens mecânicos (e orgânicos) se tornou imensamente popular, mas a realidade se mostrou bem mais complicada.
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Sim eu sei, é batido… (Crédito: Flux)Levamos milhões de anos aperfeiçoando nossas habilidades motoras. São 35 músculos, 20 tendões e 20 ramos nervosos em uma única mão humana comum, não presidenciável. Só a engenharia necessária para replicar isso já espanta a maioria dos fabricantes modernos de robôs, que dirá os antigos.
Robôs “de verdade” seguiram caminhos mais práticos e realistas. A rigor, até uma lâmpada com uma célula fotoelétrica acendendo quando a noite cai é um robô. Robôs com utilidades específicas são em verdade bem comuns, um robô genérico é bem mais complicado de construir do que um robô programado apenas para passar a manteiga, por exemplo.

O aspirador-robô é o mais próximo que temos de um robô doméstico funcional (Crédito: iRobot)
Robôs industriais surgiram de máquinas dedicadas, uma área realmente nebulosa. Somente semântica torna uma CNC de 5 eixos diferente de um robô, mas no imaginário popular nem o mais sofisticado robô industrial é um robô de verdade. A ficção científica nos condicionou a imaginar robôs como entidades humanóides, no máximo podem parecer com latas de lixo (sorry, R2).

Roy James Wensley e o Televox. Não exatamente um Cilônio. (Crédito: Reprodução Internet)
Não que robôs humanóides não fossem tentados. Em 1927 Roy James Wensley, da Westinghouse, demonstrou o Televox, um robô capaz de atender o telefone, identificar sons em freqüências específicas, e efetuar ações como ligar o forno, acender luzes ou ativar uma batedeira. O Televox mal dá para ser descrito como robô humanóide, mas por ser o tataravô da Alexa, garantiu se lugar, e por pavimentar o caminho para que, em 1939, na Feira Mundial de Nova Iorque, a Westinghouse surpreendesse o mundo com o Elektro, um robô eletromecânico que andava, falava (uma série de discos de baquelita proviam um vocabulário de 700 palavras) e até… fumava.
Claro, Elektro era apenas um truque, controlado remotamente como os robôs da Disney, mesmo hoje em dia. O caminho para robôs de verdade ainda estava em seu começo.
Por muito tempo, alguns dizem até hoje, a discussão era se robôs humanóides eram sequer uma boa idéia, se não estávamos nos limitando à forma humana, quando podíamos chutar a Evolução de lado e criar robôs bem mais capazes, com tentáculos, talvez.
O melhor argumento a favor de robôs humanoides é que nosso mundo foi feito para humanos. Não vivemos na galáxia de Guerra nas Estrelas, onde todo canto tem uma tomada praquela chave de fenda que o R2D2 usa como interface. Nosso mundo ainda é essencialmente manual, um tentáculo não consegue segurar direito uma chave de fenda. Ou um AK-74.
QUESTÃO DE EQUILÍBRIO
Andar não parece grande coisa, qualquer criança aprende a andar, nós andamos até de costas, mas transferir isso para um robô é extremamente complicado. A forma humana demanda feedback constante de todo tipo de sensores, das estruturas em seu ouvido interno, funcionando como giroscópios e acelerômetros, até os músculos em suas pernas, constantemente regulando a intensidade da contração, para te manter parado, ou em movimento sem que você caia de cara no chão. Transformar essa beleza evolucionária em algoritmos não é nada fácil, por isso a maioria dos robôs usava pernas fixas com rodas disfarçadas.
O ASIMO (sigla para Advanced Step in Innovative Mobility, ou “Passo Avançado em Mobilidade Inovadora”) da Honda foi apresentado no ano 2000, resultado de 20 anos de pesquisa e desenvolvimento em robótica avançada, e mesmo assim seu desempenho era… robótico (DSCLP)
Ao menos não tinha tentáculos.
A robótica industrial se tornou uma indústria bilionária, hoje dependemos totalmente da automação, já a robótica de robôs humanóides permaneceu como uma área de pesquisa, restrita a universidades e startups.
A triste realidade é que você só ganha dinheiro quando seu produto vai pra rua. A Boston Dynamics, a empresa mais conhecida da área, foi fundada em 1992, 33 anos atrás. Foi lançar seu primeiro produto, o cachorro-robô Spot, em 2022. Até então sobrevivia (com 1000 funcionários) de verbas governamentais para pesquisas, principalmente da DARPA, Agência de Projetos Avançados do Departamento de Defesa dos EUA, e de dinheiro de investidores. Ela acabou sendo vendida para o Google, depois para o Softbank, e agora é parte da Hyundai.
Eles levaram anos desenvolvendo seus robôs, sua capacidade de movimentação é impressionante. No vídeo mais recente a nova versão do Atlas, agora com atuadores elétricos e usando tecnologia da NVIDIA e captura de movimentos dança break, dá cambalhotas e estrelas que deixam a maioria dos humanos na poeira.
Do outro lado do mundo a China não quer perder o bonde, com várias empresas lançando produtos. A Unitree Robotics tem uma linha de cachorros kibados do Spot, bem mais baratos, não tão sofisticados mas bons o suficiente para serem vendidos. Agora apresentaram seu robô humanóide, com uma agilidade e equilíbrio impressionantes:
Esse side flip aqui é coisa do demônio, clique só!
A também chinesa EngineAI apresentou o SE01, um robô com admirável capacidade de movimento, e que dança melhor do que eu, se bem que até um Dalek dança melhor do que eu.
Na Europa a Apptronik, empresa bancada pela Mercedes, conseguiu um aporte de US$403 milhões para aprimorar seu robô, Apollo.
A Tesla vem correndo atrás, e é inegável a evolução do Optimus, desde um sujeito dançando vestido de robô três anos atrás, até máquinas capazes de se movimentar e executar tarefas, como apresentado no último grande evento da Empresa.
O Optimus ainda está bem atrás de robôs como o Atlas da Boston Dynamics, mas estão correndo atrás. Elon Musk, com seu jeito histriônico de sempre disse que em um ano estarão produzindo robôs em massa, e será a grande mudança em nossa civilização, com robôs em todo canto, levando cachorro pra passear, fazendo janta, indo às compras, ajudando em resgates…
A Tesla pretende construir 5000 robôs em 2025, Elon Musk disse que no final de 2026 uma Starship decolará para Marte levando um robô Optimus, a projeção é criar milhões de robôs, e se a maioria dos CEOs das outras empresas de robótica não compartilham publicamente dessas visões… qual o superlativo de otimista? Bem, secretamente todos sonham em vender robôs para todo mundo.
Ataque Das Máquinas
Há robôs em todos os lugares, eles viraram arroz de festa. No Carnaval 2025 a Mocidade Independente de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, usou robôs em sua comissão de frente:
Foram dois cachorros-robôs, genéricos do Spot, um robô humanóide e um robô-marionete gigante, com quatro operadores. Ficou legal, diferente, é bom quando o Carnaval usa tecnologia, todo mundo lembra até hoje do Carnaval 2001, quando a Acadêmicos do Grande Rio botou um sujeito com uma mochila a jato no desfile:
A impressão é que teremos robôs para todo lado, como num filme de ficção científica dos Anos 60, mas há um problema, um segredo que todas essas empresas não contam, e foi revelado pela Mocidade: São todos marionetes.
Os mais sofisticados robôs desses vídeos são marionetes, com maior ou menor autonomia. O Spot consegue ir do ponto A ao ponto B, e verificar se há movimentação de pessoas, por exemplo, mas ele não consegue entender uma ordem como “Vá ao Ponto C e se achar o Dr Gaius, siga as instruções dele”.
A mobilidade excelente da última versão do Atlas da Boston Dynamics vem de captura de movimento, o robô recebe dados gerados por humanos fazendo a movimentação, que depois são extrapolados e adaptados. Aquelas demonstrações de Parkour? Se você tirar uma caixa do lugar, ele cai, os fios são cortados, Pinóquio não funciona mais.
Hardware é Fácil
Sim, eu sei, levamos uns 100 anos para chegar no estágio atual onde o hardware do robô humanóide é um problema basicamente resolvido, mas mesmo assim, essa é a parte fácil.
Isaac Asimov é o Santo Padroeiro da Robótica, tendo definido como robôs funcionariam no futuro, e suas Três Leis da Robótica são emblemáticas:
- Primeira Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
- Segunda Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
- Terceira Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.
Na prática, elas são inúteis. Um pesquisador certa vez falou que elas só fariam sentido quando um robô fosse capaz de diferenciar um Homem de uma pedra. A quantidade de raciocínio necessário para interpretar corretamente essas Leis está fora do alcance dos robôs atuais.
Inteligência é Difícil
Navegar no mundo dos humanos é complicado. Nós não percebemos, mas tomamos milhares de decisões inconscientes todos os dias. Decisões que dependem de iniciativa e adaptabilidade. Nenhum robô do Universo, mesmo bancado pela IA mais avançada atual consegue pegar um 326 Castelo-Bancários, ir até o Centro, comprar um HD de 8TB e voltar, sem instruções específicas e detalhadas.
Esse tipo de adaptabilidade exige a chamada AGI – Sigla em inglês para Inteligência Artificial Geral, algo que apesar do hype da OpenAI e outras empresas, ainda está bem longe de ser concretizado. A triste realidade é que não fazemos a menor idéia de como nossos cérebros funcionam, o que é Inteligência e como transportar isso para modelos de IA, Heurísticos ou Algorítmicos.
A ironia é que sabemos exatamente como essas IAs devem se comportar; são os robôs da ficção científica, os robôs de nossa infância. R2D2, HAL9000, C3PO, Robbie, Optimus Prime, Gort, T-800, Data, Marvin, Bender, Wall-E, Johnny 5, Astro Boy, Megatron, Rosie, K-9, Iron Giant, Ultron.
Esses robôs possuem autonomia, inteligência e senciência, a habilidade de se reconhecer como indivíduo. Hoje o ChatGPT “finge” saber que é uma IA, mas ele não tem realmente essa capacidade, até porque é uma entidade efêmera. Ele não está “pensando” o tempo todo, só “existe” quando executa um prompt, mesmo sua memória é igualmente transitória e limitada.
Uma IA, mesmo avançada, logo se revela limitada, quando a conversa se alonga. Adicione a isso dados de sensores visuais, auditivos, táteis e outros, e você está sobrecarregando o sistema, dando mais oportunidade para alucinações.
O Ótimo é Inimigo do Bom
A impressão que este artigo passa é que não teremos robôs, que é tudo vaporware e marketing. Não necessariamente.
Óbvio que várias empresas irão falir, outras não entregarão produtos tão complexos quanto seus demos, mas os robôs chegarão, assim que o hyper da AGI passar. Em algum momento as empresas perceberão que não vão entregar um Tenente-Comandante Data, e entenderão que mesmo robôs mais limitados podem ser úteis.
Mesmo as IAs atuais são boas o suficiente para exercer atividades como a de uma recepcionista, nada impede que robôs sejam adaptados para funcionar como a Roberta, a recepcionista-robô do Quarteto Fantástico.
Robôs funcionam bem em linhas de montagem, robôs mais inteligentes podem substituir humanos em linhas que exigem destreza manual e reconhecimento de padrões.
Provavelmente não teremos robôs cozinheiros tão cedo, já robôs que descarreguem caminhões e organizem a dispensa, isso está bem ao alcance da tecnologia.
O Neo Beta é o robô mais fake de todos, para mostrar que existem empresas puramente picaretas. Em toda a história da Humanidade nunca um sujeito fantasiado de robô pareceu mais um sujeito fantasiado de robô. Nem o da Tesla, que era assumidademente um sujeito fantasiado de robô chegou perto.
Robôs farão segurança de instalações, com o efeito psicológico de que um robô humanóide é bem mais imponente do que um cachorro-robô, e agir como uma câmera que anda ainda é mais barato do que contratar vários sujeitos para o serviço.
Serviços mecânicos são ideais para robôs, onde há pouca variação. Uma oficina se beneficiaria muito de um robô para troca de óleo, polimento, ajuste de suspensão.
E Os Militares?
Em tempos de paz militares são notoriamente lentos em adotar novas tecnologias, ninguém vai colocar armas nas mãos de robôs e mandar pra linha de frente. Ainda há variáveis ocultas demais. O que teremos é robôs com alguma autonomia, em geral na forma de veículos. Mesmo drones não são autônomos, diferenciar entre tropas amigas e inimigas é complicado até para humanos.
Robôs serão usados principalmente para tarefas de reconhecimento, e as forças policiais abraçarão alegremente essa utilidade, com robocop-lite entrando em ambientes perigosos, agindo como terminais de telepresença para negociadores, e provavelmente também funcionarão como avatares para o Esquadrão de Bombas.
Conclusão
Todos queremos robôs como os da ficção científica. Alguns querem até mesmo catgirls, promessa de Elon Musk que será cobrada, diga-se de passagem.

Promessa é dívida, Mrs Musk (Crédito: Twitter)
A Realidade nos trará robôs menos incríveis, mas extremamente úteis ainda assim, e se vale uma dica, todo motoboy deveria começar um curso de manutenção de robôs.
A corrida desenfreada atrás dos robôs humanóides