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Milhões de brasileiros torcem pelo reconhecimento internacional de Ainda Estou Aqui, filme de Walter Salles estrelado por Fernanda Torres. A obra, sensível e profunda, trata de emoções, resistência e injustiças, sendo um raro exemplo de produção nacional que aborda a superação da dor com maestria e sensibilidade. Esse momento de celebração nos leva a refletir sobre a maneira como o cinema brasileiro retrata a superação – e, sobretudo, sobre o que costuma deixar de fora. Nossa torcida por Walter Salles e Fernanda Torres é também a torcida por um Brasil que se supera, por artistas que representam o país como heróis nacionais, assim como Pelé, Ayrton Senna e Gustavo Kuerten fizeram em suas respectivas áreas. Mas, se no esporte e em outras esferas a superação é celebrada, por que nossa cinematografia e nossas novelas insistem em narrativas que pouco exploram essa dimensão da realidade brasileira?
Hollywood e o Culto à Superação
Nos Estados Unidos, a superação individual e coletiva é um dos pilares do cinema. Filmes como À Procura da Felicidade (2006), estrelado por Will Smith, mostram personagens que enfrentam desafios extremos e triunfam por meio da qualificação, do esforço e da resiliência. O mesmo ocorre em Rocky: Um Lutador (1976), O Discurso do Rei (2010) e Gênio Indomável (1997), onde os protagonistas vencem barreiras sociais e pessoais por meio do talento e do trabalho duro. Além das narrativas individuais, Hollywood também valoriza a superação coletiva, como em Coach Carter (2005) e Desafiando Gigantes (2006), que mostram times e comunidades transformando suas realidades por meio da disciplina e da liderança. Esses filmes reforçam a ideia de que o sucesso não depende apenas do contexto social, mas da atitude, do esforço e da persistência.
A Ficção Brasileira e a Estagnação Social
Diferente do modelo americano, o cinema e as novelas brasileiras raramente exploram a superação como motor da narrativa. A estrutura predominante mantém a sociedade dividida entre ricos, que vivem em mansões e nada trabalham em escritórios bonitos, e pobres, que habitam vilas alegres, mas sem grande impulso para a ascensão social. O trabalho e o esforço raramente aparecem como elementos centrais das histórias. A dramaturgia nacional parece prisioneira de uma mentalidade que remonta a Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, onde cada classe já tem seu lugar estabelecido. Nas novelas, raramente se vê um protagonista da classe média , ou mesmo pobre ou rico , batalhando para crescer por meio do estudo ou da competência profissional. Em vez disso, os enredos muitas vezes giram em torno de dinâmicas familiares, conflitos amorosos ou disputas de poder dentro de um sistema social que se mantém imóvel.
No cinema, essa mentalidade se manifesta na predominância de dois grandes gêneros: o favela movie, que retrata a ascensão social apenas pelo crime ou pela violência, como em Cidade de Deus no(2002) e Tropa de Elite (2007), grandes filmes , e as comédias escapistas, como as de Leandro Hassum e Paulo Gustavo, que evitam qualquer discussão sobre esforço ou mérito. A vasta gama de profissões ocupações e carreiras da classe média brasileira simplesmente não aparece nas telas.
O Que Falta ao Nosso Cinema e à Nossa TV?
O Brasil real é um país de trabalhadores que lutam diariamente para melhorar de vida. Milhões de brasileiros ascenderam socialmente por meio da educação, do empreendedorismo e do trabalho árduo – mas essa realidade raramente é refletida na nossa ficção. Diferentemente de Hollywood, que mostra médicos, advogados, engenheiros, cientistas e empresários enfrentando desafios e vencendo pelo talento e pelo esforço, o audiovisual brasileiro parece ignorar essas histórias. O sucesso de Ainda Estou Aqui e a genialidade de Walter Salles e Fernanda Torres nos dão um vislumbre de um cinema brasileiro capaz de contar histórias com sensibilidade e profundidade. Mas é preciso ir além. Vamos aproveitar o mágico momento de Fernanda e Walter para refletir sobre as barreiras mentais e ideológicas que escondem as sagas dos brasileiros que fazem o nosso país.Sim, nós podemos e queremos ter personagens universais de superação. Hoje, Fernanda e Walter são isso. É pois, hora de compreender o que estamos deixando do lado de fora.