Novo tratamento para câncer de pâncreas: pílulas de cocô

Um time misto de pesquisadores do Canadá e Reino Unido estão prontos para iniciar a primeira fase de testes em humanos de um novo método de tratamento específico para câncer de pâncreas, o transplante de microbiota fecal, ou simplesmente transplante fecal.

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O nome é exatamente o que parece, consistente em administrar microorganismos presentes nas fezes, doados por pacientes saudáveis, na forma de pílulas devidamente sanitizadas, embora todo mundo vá fazer a associação inevitável com cocô.

Nada nesse nível, claro (Crédito: Reprodução/South Park Studios/Comedy Partners/Paramount)

Nada nesse nível, claro (Crédito: Reprodução/South Park Studios/Comedy Partners/Paramount)

Cocô contra o câncer

Todo mundo sabe o que é um câncer, mas não custa nada lembrar como ele se manifesta. Em situações normais, uma célula se divide em duas e estas continuarão se multiplicando, enquanto houver necessidade de reposição de novos tecidos. No entanto, o processo não é contínuo, e em animais ele é interrompido após um certo número de divisões. Em humanos, o Limite de Hayflick é fixo em 52 divisões, e depois disso, as células envelhecem (senescência) e morrem.

Isso é determinado pelo telômero, uma estrutura no fim da cadeia de DNA, que impede a deterioração do material genético; a cada divisão ele fica menor, e esse processo por si só já desencadeia outras doenças do envelhecimento. Em suma, em um determinado ponto nossas células param de se dividir, e o organismo se deteriora e envelhece, até nossa morte por meios naturais.

No entanto, se o DNA de uma célula sofre uma mutação, ela pode ignorar o Limite de Hayflick e continuar se dividindo descontroladamente, o mesmo valendo para suas “filhas”. Uma enzima chamada telomerase, que protege os telômeros e gradualmente se deteriora, se expressa em abundância e impede o decaimento das células, que formam tumores ou abarrotam os sistemas sanguíneo e linfático com células anormais.

As células do sistema imunológico, como os linfócitos T, são capazes de detectar e destruir células doentes de todo o tipo (incluindo as alteradas por CRISPR, o que é um problema), e células cancerígenas não são uma exceção, mas se o processo já saiu do controle, a reação do organismo não será suficiente, é assim que um câncer se manifesta. Se deixado sem tratamento, ele começa a se alastrar (metástase) e se manifestar por todo o organismo, e quando chega nesse estágio, é game over.

As causas do câncer são inúmeras, é mais fácil dizer que para desenvolver qualquer tipo, basta estar vivo. Mutações no DNA podem ocorrer aleatoriamente, ou por fatores externos, como consumo de álcool, fumo, exposição excessiva a raios solares nocivos, má alimentação, obesidade e sedentarismo, poluição, fatores genéticos, exposição a radiação… mesmo outras doenças agressivas, como AIDS e hepatite B, e s vírus do herpes e o HPV, podem favorecer sua ocorrência.

Câncer já é um problema independente de onde se manifeste, mas o de pâncreas possui uma taxa altíssima de mortalidade (Crédito: Reprodução/Kodansha/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)

Câncer já é um problema independente de onde se manifeste, mas o de pâncreas possui uma taxa altíssima de mortalidade (Crédito: Reprodução/Kodansha/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)

Dentre os vários tipos de câncer, o de pâncreas é um dos mais agressivos e difíceis de tratar. Ele não é um dos mais comuns (pulmão, colorretal, fígado, estômago, e mama estão no topo da lista), mas possui uma taxa de sobrevivência pós-tratamento nos cinco primeiros anos de apenas 13%, perdendo apenas para o de cérebro.

O que cientistas já sabem, tumores sustentam “ecossistemas” de microorganismos em suas cercanias, que incluem bactérias, fungos, e vírus, estes dificultam tratamentos tradicionais como a quimioterapia, e o ambiente em torno do pâncreas é especialmente problemático nesse sentido; assim, uma forma de lidar com o problema seria aplicar o transplante fecal, já usado como uma forma de proteger pacientes de superbactérias, para alterar a população microbiana ao redor de tumores, e torná-los mais suscetíveis ao tratamento.

Transplante de microbiota fecal, ou TMF, não é um tratamento novo, ele é usado como infusão em colonoscopias (sim, literalmente uma injeção de cocô líquido pelo fiofó) para tratamento de colite pseudomembranosa, uma condição séria que pode ser fatal. O objetivo é transferir microbiotas saudáveis de um organismo para o de um doente, de modo que as bactérias que vivem nos intestinos dos doadores regulem o funcionamento do órgão. Curiosamente, a microbiota dos brasileiros é considerada especialmente saudável.

No caso do câncer de pâncreas, o time de pesquisadores canadenses do Instituto de Pesquisas Lawson do Centro de Saúde St. Joseph de Londres, e do Instituto e Centro de Pesquisa de Ciências Médicas de Londres (LHSCRI), propuseram usar o TMF na forma de pílulas, com bactérias coletadas e devidamente higienizadas, para serem ingeridas. O primeiro transplante do tipo foi aprovado pelo FDA em 2023, e mostrou resultados promissores no tratamento de outros tipos de câncer.

Por mais estranho que possa parecer (afinal, são pílulas com material tirado de cocô, ainda que 100% limpo, sem cheiro e sabor), o tratamento pode representar uma melhora significativa no combate a um dos tipos de câncer mais agressivos que existe.

Se isso representa mais chances de sobrevivência e uma melhora na qualidade de vida, engolir um remédio com material literalmente tirado de fezes é um preço ínfimo a pagar.

Fonte: St. Joseph’s Health Care London, Popular Science

Novo tratamento para câncer de pâncreas: pílulas de cocô

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